quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013


Às Vezes, Eles Voltam


Sentadas confortavelmente em bancos acolchoados, as cinco garotas discutiam possibilidades, regras específicas da brincadeira nova, sem pensar nas consequências sérias advindas do ato iminente. Um pouco mais cedo, haviam comprado aquele objeto diante delas, montado nos mínimos cuidados possíveis sobre o centro da mesa circular. Oito da noite. Todas, agora, se entreolhavam indecisas. " Vamos mesmo fazer isso, meninas? " Uma unânime confirmação.

O cômodo estava frio, iluminado sensivelmente pelo pequeno bico de luz na parede, acima da penteadeira, janelas fechadas. Silêncio absoluto, aliado à ausência de barulhos externos no caos urbano. Olhos fechados em perfeita sincronia, mergulhadas numa concentração obrigatória, pois iriam jogar com os mortos, esquecidos pelo próprio passado, na busca incessante por contato. Um círculo envolvido pelo ar sombrio, ameaçador e na medida ideal para equilibrar o medo nas expressões individuais. " Devemos invocá-los com uma oração inicial ". A porta estava trancada em duas voltas completas.

A tábua Ouija retangular, plana, exibia caracteres numéricos pintados com nanquim preto. Logo abaixo, concêntricas, letras alfabéticas figuravam num espaço maior, iluminadas, em luzes sortidas de velas coloridas, seguidas por duas simples palavras destacadas por símbolos desconhecidos, piramidais, capazes de ocultar respostas perturbadoras de suas incertezas: Sim e Não. O nome de Deus era, então, proibido mencionar no decorrer do jogo. Questões espirituais, inescusáveis em regra citada. Orações múltiplas fortificariam suas razões, inebriadas por insistentes invocações com a ponta do indicador sobre o fundo da taça emborcada.

Primeira tentativa sem sucesso imediato. Segunda, nenhum fenômeno paranormal visível ainda. Terceira chamada... uma névoa interna no vidro reluzente atestava que havia, aprisionada, uma entidade solitária. O jogo havia começado ante os olhares desconcertados.

- Você é homem ou mulher? - perguntou Isabelle, apreensiva. O objeto moveu rapidamente até a letra H. Era um homem.

- Qual era sua idade quando morreu? - Caminhou aos algarismos 2 e 1.

- 21 anos. Como se chama? - Não houve nenhum movimento por hora. - Vamos, qual o seu nome?

- Por que não mostra seu nome? - Permaneceu imóvel, estático sobre a tábua.

- Por que está aqui? - O copo aproximou-se da borda inferior esquerda. Isabelle estremeceu completamente.

- Por minha causa? - Fechou os olhos, assustada, ao receber tal confirmação.

- Deus do céu, o que ele quer de você, Isa? É um espírito mal... Vamos mandá-lo embora daqui!
Acompanhado pelo tremor da mesa, um barulho inexplicável ecoou pelo quarto, fazendo-as conter um grito de horror. A luz fraca chamuscava repetidamente, num circuito elétrico que fez pipocar a lâmpada fluorescente em explosão de vidros sobre seu rosto. Respingos de sangue nasciam dos pequenos poros formados. A menina chorou.

No mesmo momento, as chamas alaranjadas ondulavam no assopro identificável, uma por uma, aumentando a escuridão interior. A vela enegrecida, permanecia acesa. Névoa dissipada na taça revirada.

Continuavam sentadas, presas por uma força descomunal, próximas, com as mãos dadas em orações de arrependimento posterior. " Ele está solto aqui dentro ". Podiam sentir uma presença desconhecida, sua respiração ofegante, corações acelerados pelo pânico total.

Os passos de um ser invisível riscava o chão, quebrando o silêncio novamente, aproximando da matéria humana em um ímpeto carnal avassalador. Isabelle encolheu-se, cabisbaixa, a combater pelo predomínio corporal . Gritos terríveis por socorro. Ela ainda prevalecia.

De repente, a tábua afastou um pouco, dando lugar ao ser tentando manter a posição de contato, um braço forte segurando suas mãos na tentativa impiedosa. Sentia seu rosto avermelhar dos fortes tapas recebidos, no ato da possessão. Finalmente, petrificou, sucumbida pela segunda personalidade irreconhecível em gestos anormais. Fungava como um animal doentio. As amigas estavam na inércia, apavoradas. " Ela está possuída pelo espírito que invocamos. Tira ele daqui, Deus! "

Levantou a cabeça, exibindo os olhos revirados em expressão terrível, num transe metafísico incomum. A mão direita completamente contorcida, levantada até a altura da boca que pronunciava suas primeiras palavras, graves, como se fosse profanadas por um demônio maligno purgando todos os pecados diante da salvação divina.

- Cuidado com suas crenças, vadias! - disse, apertando o braço da amiga ao lado. A garota desmaiou.

O porta-retrato foi arremessado contra a porta, produzindo um barulho estrondoso. A madeira ainda rangia diante do presente terror.

No canto dos lábios inferiores, um caminho de sangue escorria, caindo sobre a tábua e aumentava quantitativamente. Havia rasgado com os dentes caninos sua própria língua embebida por saliva em reflexos rápidos de visões diabólicas. Novamente, o grito assustador fez apagar a última chama. Isabelle ajoelhou-se no chão, pressionada nos ombros.

Subitamente, voltou ao estado normal, chorando desesperada por ter enfrentado tamanha experiência de possessão. As lágrimas caiam initerruptas, logo sendo amparadas pelas colegas, um pouco aliviadas, depois de minutos de pura agonia. Da boca, o sangue estancava lentamente. Uma dor insuportável que não conseguiria explicar aos pais.

Do outro lado, a garota despertava, confusa. Estava apavorada, com a face ensanguentada. Mãos sobre a boca, trêmula. " Meu Deus, não devíamos ter feito isso ". Estava sem condições de reagir aos impulsos nervosos. Uma porta, agora entreaberta...

Uma simples brincadeira se converteu em algo grave, que poderia ter ocasionado perda de vidas despreparadas, médiuns consignadas pelos seus atos inconsequentes. Mortos rondando no plano real, completas levigações, fenômenos do além, num possível elo de comunicação. Esse seria um segredo escondido por todas. E saíram.

No dia seguinte, conversavam sobre os acontecimentos. Agora, riam da situação enfrentada. Sabiam, no íntimo, que nunca deveriam ter planejado um jogo sem saber lidar com as regras. Isabelle, entretanto, continuava estranha como na noite anterior.

- Isa, o que foi? Algum problema? - perguntou uma delas, logo percebendo seu olhar estranho. Ela não respondeu.

- Isa, está nos ouvindo? - Sem respostas novamente. Apenas tremia exageradamente.

Ao lado, um garoto loiro, lia tranquilamente o livro preto com emblema do pentagrama, intitulado " Filosofias Espirituais ". O vento varria as folhagens em volta do pátio silencioso. Muitos jovens distantes conversavam descontraídos sobre o final de semana. Sexta-feira, 13. Um céu nublado que jamais esqueceriam enquanto existissem. Toque macabro do destino.

Então, o rapaz chegou às últimas linhas do texto. Levantou as sobrancelhas, inculcado com a frase enigmática. Olhou, perdido nos pensamentos, para a menina com bandagens no rosto e sorriu.

- As coisas muitas vezes não são como parecem ser. Cuidado com suas crenças.

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